A indicar o sacrário e perto dele, para testemunhar a presença de Jesus Eucaristia, temos uma lâmpada acesa. Quando antes a lâmpada era de azeite, pelo menos de manhã e à tarde, alguém passava por lá a acender a lamparina, para que a chama se não apagasse. Agora que é, habitualmente eléctrica, pode passar um dia, uma semana, em que a capela ou igreja está fechada e não há quem lá vá. Também por aí andará poeira no ar e que nos impede de ver o erro que fazemos, a ingratidão que cometemos, a falta de amor que temos, a ausência sistemática do sacrário. Mas mesmo que esteja a lâmpada acesa, eléctrica que seja, por ser mais prático, mais higiénico, etc. precisamos de fomentar um pouco por toda a parte as “lâmpadas vivas”

As que estão junto ao sacrário não nos podem substituir. Estão lá na nossa vez, mas não precisamos de crescer na presença e na companhia amorosa, precisamos de ser lâmpadas vivas. De manhã à noite, sempre alguém, uma pessoa que seja, rezando junto do sacrário, rezamos a Jesus Eucaristia, rezando diante da custódia. Lâmpada viva, coração ardente, alma em fogo, para substituir a de azeite ou a eléctrica. Lâmpada viva, cristão ou cristã, consagrado ou consagrada, padre ou bispo, de joelhos junto do sacrário.

Precisamos de fomentar esta adoração, este louvor perene, que se não pode reduzir a um  dia por ano a umas horas fortuitas em circunstâncias raras. Há, graças a Deus, paróquias onde Jesus Eucaristia está  exposto, todos os dias, pelo menos uma hora antes da minha, para que aqueles que vão chegando, adorem louvem, reparem. Há outras que preferem tê-lo exposto depois da Missa, convidando a continuar a adoração a acção de graças. Há Igrejas que têm o Senhor exposto todo do dia da primeira sexta feira e não falta, graças a Deus, lâmpadas vivas, para adorar, louvar, reparar, interceder. Precisamos de multiplicar as “lâmpadas vivas”, neste Ano Eucarístico. Precisamos de multiplicar os momentos de exposição e de adoração.

Algumas comunidades religiosas, que têm várias Irmãs mais idosas e com possibilidades de menos trabalho, têm o Senhor Jesus Eucaristia, exposto todos os dias, durante uma ou duas horas, para que ao menos essas, em nome de todas, e da Congregação, rezem, adorem, sejam “lâmpadas vivas”. E também se encontram comunidades que expõem sempre Jesus, durante o tempo de oração comunitária e de vésperas. Todos, pastores e fiéis, superiores e súbditos, mais novos ou mais idosos, todos precisamos de aprender a ser lâmpadas vivas. Estar delicadamente silencioso e orante diante dum sacrário, pondo o coração a rezar, a alma em comunhão com Jesus, os lábios em prece ou em cântico, para que , como “lâmpadas vivas”, sejamos reparadores, adoradores em espírito e verdade, sejamos contínuos intercessores e mediadores.

Mas sente-se, no ar, uma poeira que impedem de ver o valor destas maravilhas, um nuvem de poeira que faz interpretar esta oração como algo sem valor, sem importância, algo que não dá fruto, não tem eficácia imediata. A poeira engana-nos, cega-nos. E há cegos que não vêem e cegos que não querem ver. Cegueira interior, sobretudo aqueles que tendo responsabilidades na Igreja, nos seminários, nas casas religiosas, nos movimentos apostólicos, na organização e dinamização da vida eclesial, torna-se mais grave. Mas anda por aí o espírito das trevas a deitar poeira nos olhos da alma e nos olhos do coração. E, depois, não se fomentam as lâmpadas vivas, não se tem encanto por aquilo que é mais essencial. E se não adoramos Jesus, teremos outros deuses e outros ídolos. É isso que a nuvem de poeira quer fomentar em nós.

No sacrário, silencioso, pobre e humilde, está o Senhor. Por isso o Santo Cura d’Ars afirmava: “O silêncio do sacrário assusta-me”. E é mesmo para nos deixar perplexos, estupefactos, surpresos. Ficarmos abismados perante tal presença. Está ali o Messias Senhor, o Rei dos Reis, o Bom Samaritano e o Bom Pastor. Está ali, naquele Pão sagrado, o Rei do Céu e da Terra, o Verbo do Pai e o Filho de Maria de Nazaré. Aquele Pão do Céu é Jesus, é uma Pessoa, é o Amigo Divino, é Aquele que tudo sabe e tudo pode. Jesus Eucaristia, Rei e Senhor, no silêncio omnipotente do sacrário é uma contínua surpresa, é um convite contínuo à nossa presença, a nossa oração, à nossa amizade orante. Mas “assusta” não O ver, não O ouvir, não O sentir. Silencioso, feito o  pobre mais pobrezinho, ali está na mais profunda e eloquente humildade, “escondido” naquele pedaço de pão consagrado. Jesus Eucaristia não é uma coisa sagrada, é uma Pessoa, é o Menino do presépio, o carpinteiro de Nazaré, o Jesus da Cruz, o Senhor Ressuscitado, o Rei da Glória, Está ali por detrás da porta de milhões de sacrários espalhados pelo mundo.

Mas…ó poeira, ó nuvem de poeira que nos impedes de O contemplar, de reconhecer que é Ele, de aceitar pela fé que Ele está ali. E a poeira, o nevoeiro parece que nos quer afastar do sacrário. De facto não vamos lá, muitas vezes e com tempo, adorar, louvar, contemplar, reparar, interceder. Ele está, mas não estamos presentes a Ele. Porquê? Falta de fé na sua presença? Falta de tempo? Falta de amor? Todos os santos e santas, mesmos os mais contemporâneos como Teresa de Calcutá ou o Papa João Paulo II, são sempre pessoas de sacrário, de presença amiga a Jesus Eucaristia. Sabem gastar tempo com Ele, não querem deixá-Lo só .Sabem que está ali o Senhor, o Mestre, o Rei, o Salvador. Vão adorar, fazer companhia, dialogar. Ficam lá horas seguidas. Parecem não querer arredar pé do pé de Jesus Eucaristia. Longas horas de oração, grandes vigílias. Parece que nunca cessa a adoração, a reparação, a intercessão pelo mundo. Parece que gostam daquela companhia, que o sacrário tem íman que os atrai, seduz, convida.

Têm sede de estar com a fonte da água viva. Que insondável mistério!!!

A heresia da acção, a azáfama desenfreada do dia a dia, não nos deixam tempo para estar junto do sacrário. Até parece que não acreditamos que Ele esteja lá. E se calhar não acreditamos mesmo, até ao mais profundo do nosso ser. Se acreditássemos a vida mudava e íamos lá mais vezes, estávamos mais tempo, levámos lá o pensamento e o coração. Talvez façamos uma vista à pressa, uma genuflexão mal ajeitada, mas não ficamos, com serenidade, com tempo e com amor. A nuvem de poeira parece impedir-nos de ter fé nesta presença eucarística, de ajoelhar diante do sacrário, de termos tempos de adoração comunitária, diante de Jesus, exposto em custódia. Assim como o denso nevoeiro nos impede de contemplar uma paisagem bonita ou uma obra de arte, assim nos impede de “ver” Jesus e de estar com Ele, na sua misteriosa mas real presença em sacrário. Parece que andamos enganados, alienados, descentrados. Temos a graça de estarmos com Ele e não aproveitamos, a graça de estar com  nosso tesouro, com a pérola preciosa da nossa vida e não aproveitamos. Temos ali, no sacrário, o Jesus Amigo, e não temos paixão para nos encontrar com Ele e viver em íntima comunhão. A nuvem de poeira vai fazendo os seus estragos. Que pena!!! Falta-nos fé viva e amor ardente. Falta-nos fogo no coração, amizade sincera, presença amiga. Precisamos de ser cristãos e cristãs, consagrados e sacerdotes, de vida em sacrário. Maravilhoso desafio!!!

A Eucaristia é o centro, a fonte da Igreja. É o seu tesouro, a sua pérola preciosa. Na Eucaristia temos renovado no altar o sacrifício de Cristo. Ela é o mistério da fé, o sacramento por excelência. O maior dos sacramentos. A Eucaristia é dom da Santíssima Trindade, é dádiva de Maria, é banquete de pródigos, é sacramento de unidade. Que mais dizer deste tesouro da vida da Igreja? Ela é a fonte da nossa purificação, da nossa santidade, da nossa divinização, fonte de vida e de santidade. Tudo nos vem da Eucaristia, pois n’Ela é o próprio Deus, Jesus Cristo, Deus e Homem verdadeiro que Se oferece e vem a nós na sagrada comunhão. Nesta comunhão Ele vem a nós e nós permanecemos n’Ele.


Mas infelizmente, por causa duma nuvem densa de poeira que vai invadindo a vida e o coração de muitos católicos, a Eucaristia não é vista, amada, vivida como o grande tesouro da Igreja e da vida de cada um de nós. Essa nuvem tem levado muitos a deixar de participar na Eucaristia, tem levado outros a faltar a Ela com frequência. A nuvem de poeira tem conseguido que muitos não comunguem com frequência e não tenham fome e sede do Corpo e Sangue de Cristo. A nuvem levou muitos a não dar à Eucaristia o lugar que Ela tem direito, a fazer da Eucaristia não um sacramento vivido, uma festa divina, mas uma celebração “moribunda”, sem alento, quase sem fé. Reza-se Missa mas não se celebra sacramento de vida e de amor.

E a nuvem de poeira vai impedindo de apreciar bem o tesouro, de saborear a pérola preciosa que é o sacramento do altar. Pior ainda, não a preparamos como devemos, não a celebramos com fé e como festa, não sabemos dar tempo e intimidade à acção de graças. A Eucaristia tornou-se para muitos algo de pesado, um “frete”, uma coisa que “não diz nada”. Mas precisamos de tirar a poeira, o nevoeiro, a sujidade que impede de ver com mais clareza, mais brilho, mais encanto, mais amor, o sacramento e o sacrifício da Eucaristia.
É verdade que muitos católicos, (será que o são de verdade?) deixaram a Eucaristia talvez pela maneira monótona como Ela é celebrada, pela falta de encanto dos cânticos, pelas homilias longas e fastidiosas, etc. Mas é aí que a nuvem causa seus danos.

Primeiro em quem celebra, pois tem a obrigação de viver por dentro o sacramento e dá-lo aos fiéis com calor humano e com fogo evangélico, sem pressas, sem demasiado tempo, sem raspanetes, sem demagogia. E, depois, os fiéis, devem perceber que a Eucaristia vale por si mesma, qualquer que seja o sacerdote, a língua, os cânticos, etc. Ela é o fruto bendito do ventre sagrado da Virgem Maria, o Pão vivo descido do Céu, a Ceia Santíssima celebrada e instituída por Jesus no cenáculo, a renovação do Mistério Pascal. Tudo nos vem desta fonte divina, desta festa por excelência.
Temos que tirar a poeira, a nuvem, o nevoeiro…o tesouro vale tanto!!! É tão precioso!!! Ainda há quem não ame o tesouro, não aprecie esta dádiva divina, este precioso dom…Vivemos em Ano Eucarístico, temos que rezar mais a Eucaristia, saboreá-la melhor, reflectir mais sobre o Sacramento do Amor. Prepará-la melhor, celebrá-la melhor, dar mais tempo e intimidade à acção de graças. Comungar mais vezes e com melhores disposições. Não deixemos que a poeira nos impeça de apreciar o tesouro, de contemplar o mistério do amor, de celebrar a festa. Sem Ela ficamos mais pobres, mais fracos, mais famintos. Vivamos a festa. Celebremos o amor. Não deixemos que a poeira, que o espírito das trevas, nos perturbe a “visão” do amor eucarístico. Cresçamos na contemplação e vivência da Divina Eucaristia.

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